terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Conversando... sobre o Belo

É porventura a mais bela composição instrumental de sempre. 
Partilho-a com os meus votos de que, em 2014, a humanidade consiga, em todas as suas relações, atingir um semelhante grau de harmonia, conjugação e Belo.

Feliz Ano Novo! 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Texto vigésimo

Luigi Pirandello, ou o teatro em estado puro.
Pela depuração dos diálogos, em que a redução a um minimalismo de efeitos reforça a complexidade de elaboração dos processos. Pirandello ensina-nos que, em teatro, o mais importante está no que não é dito. E isso é um desafio. 
Pela desmontagem formal que nos faz assistir, mais do que à ilusão erguida sobre o palco, ao mecanismo construtor dessa mesma ilusão. Pirandello desvaloriza o mero deslumbramento perante a obra criada e mostra-nos que, em teatro, o mais importante está na reflexão sobre a capacidade humana de criá-la. E isso é uma paixão.
Mas, principalmente, pela profundidade de abordagem da identidade humana, que nos remete, de cada vez, ao “odor da nossa própria vida” do qual já não damos conta. Pirandello recorda-nos que, em teatro, o mais importante é ferir de morte as personagens num delicado patíbulo de flagelação, para que elas não morram em vida brutalmente imaculadas como figuras de cera. E isso é uma purificação.
Vem isto a propósito da peça em um ato O Homem da Flor na Boca, que Luigi Pirandello escreveu na década de vinte (estreou em 1923 e foi editada em 1926) e da qual me atrevi a fazer a dramaturgia para uma versão que estará em cena entre 9 e 18 de janeiro, na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul. Trata-se de um texto sublime, adaptado de um conto anterior (Caffé notturno, de 1918, posteriormente reeditado com o título La morte addosso), no qual dois homens se confrontam um com o outro, cada um consigo próprio, ambos com a vida e a morte.
Encontra-se aqui o melhor de Pirandello, o teatro em estado puro. Nada mais importa do que o ser humano radiografado no texto; nada mais importa do que as suas contradições, personificadas nas duas figuras em cena; nada mais importa do que o sabor da vida e o pavor da morte, presentes de forma simultaneamente ciente e incógnita, inquietante. A peça vale pelo que acontece durante a representação, mas vale também (mais ainda?...) pelo que fica depois na consciência de quem assiste. O bilhete pago não compra apenas um espetáculo a que se vai assistir, mas adquire por junto uma angústia que se leva para casa no fim. Não é isso a arte: um objeto criado por alguém que (re)cria algo nos outros?...
Luigi Pirandello, ou o teatro em estado puro. O melhor é ir ver.


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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Texto décimo nono

Eis o meu Presépio: o linho da pureza íntima, a serapilheira da precária condição humana, a palha do mundo transitório, onde tudo vale quanto dura. Invisíveis, os arames das convicções e projetos erguem as figuras da Sagrada Família, que a chama da inspiração divina ilumina e aquece. A festa de fitas, bolas e luzes coloridas fica para trás, em segundo plano. E, nas figuras, os rostos que faltam são os nossos.
De que outras metáforas precisamos para celebrarmos a Vida? Para crermos em nós próprios, para confiarmos uns nos outros?
Boas Festas!


domingo, 22 de dezembro de 2013

Conversando... sobre o Natal

Quero desejar a todos os amigos e leitores deste blogue um Feliz Natal. Não apenas um natal alegre de risadas aparentes, mas um Natal verdadeiramente Feliz de aconchegos interiores, de comoções essenciais. De calor e simplicidade. De contemplação e abertura.
Que este seja um tempo em que consigamos viver a grande metáfora que esta quadra nos ensina: a fragilidade íntima floresce na aspereza exterior, o conteúdo preenche a forma, a plenitude inunda o vazio. As vozes de mero ruído calam-se para escutar o silêncio eloquente, a mensagem sobrepõe-se ao discurso, a Palavra suplanta a verborreia. Deus habita no homem.
Então, o mundo transforma-se: a aspereza exterior suaviza-se na intimidade frágil, a forma embeleza-se pelo conteúdo, o vazio plenifica-se. A eloquência corporiza-se nas vozes, o discurso transmite a mensagem, a verborreia organiza-se em Palavra. O homem torna-se Deus.
E a criação faz sentido. E ninguém fica de fora, porque todos somos homens, porque todos somos Deus que se faz homem. Porque todos somos Criação.
Feliz Natal!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Ficção VIII - "Dê à chave!"

O rapaz endireitou-se, afastou-se ligeiramente do motor sobre o qual se debruçava e onde lia com a desenvoltura de um letrado nas entrelinhas dos compêndios. Desviou-se um pouco para o lado do capot levantado, para ver o pára-brisas atrás do qual o cliente, no banco do condutor, se afundava numa ansiedade incontrolada, agarrado ao volante como um náufrago a não importa o quê.
“Dê à chave, faz favor”, disse o rapaz, enquanto esfregava as mãos sujas de óleo ao desperdício mais sujo que as limpava.
O cliente era um homem maduro, engravatado de funções elevadas num colarinho engomado de graus académicos. Obedeceu, no gesto vagamente devoto de quem confia num milagre que já não espera. Rodou a chave na ignição, o motor pareceu estrebuchar, queixou-se num soluço de expetoração presa.
“Já quis”, comentou o rapaz, “Insista, dê à chave”.
De novo a chave rodou, sucessivamente como contas de um cordão de reza a passar nos dedos. Até que um ruído mais profundo e consistente anunciou que o motor entrara em funcionamento, evoluindo do ronco áspero inicial para um estremecimento suave e regular.
O cliente engravatado saiu do automóvel, tentando dissolver o nervosismo no modo como levava a mão ao bolso interior do casaco, em gesto de sacar uma arma. Mas mais atrapalhado.
“Muito obrigado”, disse, a carteira já na mão para exprimir em notas bancárias a gratidão que não sabia dizer, “Estou sem tempo, percebe? Tome para si e muito obrigado. Logo havia de me acontecer uma avaria destas aqui nesta terra de ninguém. E eu sem tempo, percebe? Muito obrigado”.
O rapaz, tão insensível às notas que lhe vieram parar às mãos como ao discurso de rabo na boca do cliente, quedou-se a olhá-lo. Viu-o entrar novamente no automóvel, arrancar num frenesim de pressa e desaparecer da sua vista tão definitivamente como se lhe esvaía do horizonte o curso de engenharia aeroespacial com que inadvertidamente sonhara e do qual desaguava no anónimo desenrasque de motores daquela oficina de província. E sorriu à lembrança do cliente engravatado, sentindo-se maior do que ele numa superioridade que não era orgulho, mas consciência da necessidade: mesmo um doutor engomado precisa de alguém que, limpando as mãos ao desperdício mais sujo do que elas, o ajude a dar à chave.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sexta alegoria

A minha dor é tão grande
Tão grande de sofrer
Que por mil léguas que eu ande
Não fujo a este doer

A minha dor é tão dura
Tão dura de chorar
Que desço o rio à procura
De um mar onde a sossegar

A minha dor é tão triste
Tão triste de viver
Que tudo, tudo o que existe
Conspira-me até morrer

Porém
Se esta dor que me traz vivo
E cativo se apagasse
Porém
Se este grito que me arrasta
E me agasta se calasse
Que seria de mim?

Teria chegado o fim…

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Texto décimo oitavo

Noventa e Três é tido como o último romance de Victor Hugo. Publicado em 1874, é uma lição de escrita de um romance histórico. O magistral retrato da França revolucionária não pode deixar de nos envolver: o fervor republicano sobreposto ao ideal monárquico taciturno, o Terror revolucionário, gerado nas entranhas do povo, de armas em riste contra a resistência aristocrática orquestrada do exterior.
A revolta da Vendeia é o pano de fundo sobre o qual Victor Hugo deixa correr a história do marquês de Lantenac, nobre condutor dos camponeses dispostos a morrer por uma monarquia que os reduz à miséria, e do seu sobrinho-neto Gauvain, o idealista revolucionário disposto a chacinar a população em nome da liberdade que pretende oferecer-lhe. À volta da intriga, tão intervenientes como espetadores, surgem as personagens históricas do período da Convenção, das quais inevitavelmente se destacam Marat, Danton e Robespierre, a páginas tantas protagonistas de um diálogo verdadeiramente sublime.
Mas o melhor da obra está guardado para o fim: o Livro Sexto e o Livro Sétimo da Terceira Parte constituem um hino à dignidade humana de que ninguém menos que o maior vulto da literatura seria capaz. É preciso ler aquelas páginas para (re)descobrir o valor intrínseco e profundo do ser humano, para entender que as opções radicais da honra elevam o homem bem acima das desprezíveis manobras de sobrevivência a todo o custo. É preciso devorar aquela escrita e fechar enfim o livro para acender a cínica lanterna de Diógenes e recomeçar, neste cinzento nevoeiro de relativismo moral dos nossos tempos, a busca do Homem nos rostos dos pigmeus que até de si próprios se escondem.
Noventa e Três é tido como o último romance de Victor Hugo. Publicado em 1874, é uma lição de escrita de um romance histórico. É uma lição de escrita de um romance. É uma lição de escrita. É uma lição. É. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Conversando...

Aqui fica, a todos os amigos e seguidores deste blogue, o convite para estarem presentes no próximo sábado, às 19.15 horas, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias, em Lisboa.
Para além de podermos conversar sobre o livro Nós, Vida, será uma oportunidade para um contacto pessoal que muito apreciarei.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quinta alegoria

Vocês não sabem a vida
Como eu já sonhei a morte
Nunca antes de a ver perdida
Senti a vida tão forte

Vivi silêncios de monge
Morei fundo no deserto
Mas tudo me era tão longe
Quanto eu julgava estar perto

Peregrinei monte e rio
Incensei longes anseios
Mas acabei no vazio
Dos gestos outrora cheios

E já chorando na estrada
Abraçado ao pranto mudo
Ergui os olhos do nada
E contemplei-te, meu tudo

Vocês não sabem a vida
Como eu já provei a morte
Mas foi por vê-la perdida
Que sinto a vida tão forte!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ficção VII - Começou a escrever

Estava só. Olhou em volta, ao redor das quatro paredes, e sentiu o olhar doer-lhe como um choro na noite. Foi à janela, derramou o olhar, quis ver mais longe, encontrar um pouco fora o que dentro lhe sobrava. Mas foi em vão, porque percebeu que não podia pedir ao deserto que se metamorfoseasse em bosque frondoso. Não porque o não fosse, mas apenas porque ele não conseguia vê-lo.
            Fechou os olhos, mas as imagens dele próprio demais continuavam a bailar-lhe dentro como borboletas sinistras. E pouco importava se lhe evocavam o mundo real cujas observações ele colecionava, ou se eram mesmo o reflexo e o prolongamento desse mundo. A verdade é que, dentro dele, existiam muito mais, com muito maior intensidade e era aí que lhe doíam. E era assim que se tornavam uma verdade que não existia lá fora.
            Abriu de novo os olhos, mas já não derramou o olhar. Correu as cortinas, virou as costas ao bosque frondoso que não conseguia ver e recolheu-se, mergulhou no deserto de si próprio em busca de um qualquer oásis de estar ali, que não conhecia. Deitou-se, cerrou o olhar sem se dar conta de ter baixado as pálpebras. Quis dormir, mas o pavor dos pesadelos de ontem retinha-o num lugar de vigília que o martirizava de lembranças. Resignou-se a sonhar acordado, que era o seu irremediável destino. Desejou ser simples, amaldiçoou a sua natural inata complexidade, ou a consciência dela, que é a mesma coisa. Invejou os pobres de espírito, os néscios e os ignorantes, que dormem tranquilos noite após noite, sem culpa nenhuma. Detestou-se por se sentir condenado por todas as vicissitudes que o atropelavam e de que só ele era culpado, porque as percebia.
Sentiu a luta dentro de si, envolveu-se nela um pouco, mais uma vez. Por fim, respirou fundo… e desistiu. Viver é difícil demais, quando se tem tanta vida dentro. Registou mentalmente aquele dia em que abdicava de si próprio, em que renunciava ao seu deserto como se enfim reconhecesse a impossibilidade do oásis, em que assumia viver apenas nos outros. A data da sua morte.
E começou a escrever.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Quarta alegoria

O abalo
O sufoco
O nó na garganta
O soco no estômago
A vertigem da largada
As amarras receosas
A onda que arrasta as teimosias de âncora
O antegozo da aventura
A saudade antecipada
O passo decisivo
O abraço da partida que não se desprende
Aperta-se mais nos olhares que se afastam
O choro do adeus alegre
Espumante derramado na sagração da viagem
E depois o silêncio
A alegria confusa na dor engolida em seco
O consolo da missão a cumprir-se
O medo da incontornável finitude
A angústia de ser humano.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Texto décimo sétimo

Era de manhã. Cedo, mas ele não sabia precisar a hora certa. Ainda não usava relógio porque não havia para quê. A decifração do código hermético do mostrador era, aos quatro anos, uma tarefa transcendente, algures a meio caminho entre a contemplação e a pesquisa.
Chegou pela mão da mãe, porque esse era um tempo em que ainda fazia sentido aquele aconchego de uma mão maior envolvendo a sua. Havia uma porta em arco, solene e robusta, que talvez fosse castanha, mas que ele apenas recorda na cor verde escura em que foi pintada de novo, anos mais tarde. A porta estava aberta, porque havia muitos meninos como ele, que chegavam aconchegados por mãos maiores que envolviam as suas, como certezas repletas que abafavam os medos apertados que se deixavam conduzir.
Transpondo o umbral, ele notou a penumbra do átrio, simultaneamente misteriosa e lúgubre. Os outros meninos pararam e ensaiaram um recuo estarrecido, prontamente combatido pelo puxão firme das mãos maiores que comandavam sem apelo todos os sobressaltos. Ou talvez não tenha havido recuo nem puxão nem sobressalto, mas apenas a consciência, da parte dele, de uma reação distinta quando, soltando a mão do aconchego, sorriu por dentro do seu rosto inexpressivo e avançou pelo chão de tijoleira até a um banco corrido, encostado à parede lateral. Sentou-se, porque sabia que vinha para ficar. A mãe dissera-lho, antes de saírem de casa e, por isso, ele interiorizara o facto com uma certeza tão absoluta como a noção da sua própria existência. Ou mais ainda. Os outros meninos permaneciam de pé, junto das mães que procuravam largá-los das mãos maiores com a mesma repleta certeza com que os tinham agarrado e trazido até ali.
Ele observava atentamente aquele medo que subia das mãos largadas para o encolhimento dos rostos. Em alguns deles, esse medo extravasou em lágrimas mal contidas que ele não percebeu, mas de que estranhamente se compadeceu. A mãe dirigiu-se a ele e ele viu que os passos de aproximação eram um movimento de despedida.
“Agora ficas aqui com os outros meninos”, disse a mãe, “Eu vou-me embora e volto logo à tarde para te vir buscar”.
Ele fez o seu rosto sorrir por fora do seu íntimo inexpressivo e não disse nada. A docilidade com que se deixara conduzir desde casa, desde a decisão da mãe, fora já eloquência bastante e nada mais havia a dizer. Porque ele não considerava a necessidade de resposta que a mãe sentia, a insegurança que criava nela aquele sorriso vazio com que pretendia confortá-la. A mãe beijou a imobilidade dele e deu meia volta, engolindo a ânsia de palavras com que sempre se afastava dele e que ele nunca satisfazia, sem que ela soubesse porquê. Ou sabendo um porquê que não era o dele, porque o silêncio que, para ela, era frieza e egoísmo, para ele não passava de um modo de exprimir a insignificância que sentia relativamente a si próprio.
E ficou na escola.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ficção VI - Apeteceu-lhe chorar

De olhos baixos, acocorado na sua envergonhada miséria, sentiu o gotejar das moedas na palma da mão estendida. A seguir fechou-a num punho cerrado de impotência e revolta. Só depois ergueu os olhos, a tempo de ver as costas da senhora idosa que se afastava, no passo ligeiro da consciência aliviada.
Apeteceu-lhe chorar, derramar as lágrimas do seu grito surdo sobre aquelas moedas que protegia ciosamente na mão fechada. De olhos marejados, apertou mais o punho e sentiu, nas pontas dos dedos, o atrito pegajoso incómodo da sujidade que abominava. E recordou um tempo anterior, em que os mesmos dedos, impecavelmente limpos, arrumavam livros nas prateleiras num ritual de reverência e ternura. Ou percorriam levemente as lombadas num fervor especializado, em busca de satisfazer o pedido de mais um cliente.
Esse tempo era agora uma memória, uma saudade amarga e feroz: entristecia-o no orgulho de tê-lo vivido, consumia-o no revivalismo em que o alimentava. A livraria fechara as portas num ato de rendição à competição acelerada de um tempo que a sua quietude não sabia acompanhar. Despejado do seu emprego de toda a vida, ele viu-se, aos quarenta e nove anos, abandonado na esquina do seu mundo arruinado, condenado a recomeçar sem ponto de partida.
Tentou, porque a sua alma resistente negou-se a aceitar o afogamento. Mas a verdade é que o seu corpo já ultrapassara a juventude convencionada para o relançamento de uma vida de produtividade aceitável. E, apesar de teimosamente insistir, após vinte meses de recusas foi obrigado a capitular. E resignou-se a estender a mão, habituada ao toque dos livros, à mendicidade de algumas moedas, compassivamente partilhadas por outros sobreviventes mais afortunados.
Apeteceu-lhe chorar, derramar as lágrimas do seu grito surdo sobre aquelas moedas que protegia ciosamente na mão fechada. Sempre amara os livros e nunca se preocupara com o dinheiro. Agora, no entanto, sabia que aquelas moedas poderiam valer-lhe mais que a livraria inteira do seu passado. Porque lhe garantiriam uma sopa para o jantar que lhe aconchegaria o abandono a que a falência da livraria o condenara.
E chorou. As lágrimas gotejaram sobre o seu punho cerrado sobre as moedas gotejadas. Até que ponto seria ainda capaz de descer?...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Texto décimo sexto

Jogava as damas com o avô desde a infância. Sem o saber, foi crescendo naquele ritual de aprendizagem da vida. O avô era um homem repleto, trémulo da doença de Parkinson e da absorção de múltiplas vivências, um pouco curvado do peso dos anos e do armazenamento de memórias gratificantes. Nascera no século dezanove, vivera o tempo do regicídio e da República, assistira às duas guerras mundiais e atravessara o túnel da ditadura. E ainda haveria de contar a história da revolução dos cravos.
De cada vez que jogavam as damas, o avô inclinava-se sobre o tabuleiro que um filho trouxera do Brasil e derramava-se sobre ele em lições de vida. Nas histórias que contava nas entrelinhas das jogadas (as “mudas”, sempre plenas de intenção), mas também no próprio diálogo estabelecido sobre o tabuleiro, que aqueles dedos enrugados de sabedoria transformavam em metáfora de ser. E ele, deixando-se iniciar pelo avô no jogo das damas, sem o saber crescia por dentro da sua meninice. Aprendia que, no pavimento quadriculado da vida, há áreas que não podem pisar-se; que é preciso seguir pelos espaços disponíveis; que a única opção de movimento válida é para a frente; que se deve sempre buscar companhia no avanço, sem ter medo de enfrentar os adversários; que há uma meta no extremo oposto daquele donde se parte e que é preciso superar os obstáculos para atingi-la; que, uma vez aí chegado, tudo recomeça, que o crescimento no direito a movimentos mais amplos é acompanhado de uma duplicação do peso a transportar e de uma responsabilidade maior sobre o tabuleiro. E que o jogo é uma partilha onde a estratégia de sucesso assenta na atenção ao outro; que a vitória é uma alegria dividida e efémera, o empate é uma (in)satisfação mútua e a derrota um crescimento a partir dos próprios erros. Que o melhor de tudo é poder jogar de novo. Ter com quem.
Jogava as damas com o avô desde a infância. Bebeu sobre o tabuleiro o amor à vida, na delicadeza do toque das pedras redondas, no recheio deslumbrante das memórias partilhadas, na ternura daquela longevidade paciente dada ao respeito numa presença desarmada e simples. Quando o avô morreu, ele tinha vinte anos. Deixou de jogar as damas, depois de mais algumas partidas casuais com parceiros fortuitos, “mudas” desabitadas em que foi indiferente ganhar ou perder. Nunca mais lhe apeteceu.
Ainda conserva o tabuleiro que o tio trouxe do Brasil.


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Terceira alegoria

O túnel.
O embrulho das trevas,
A solidão do recheio.
A travessia conformada,
Resignada no hábito.
A materialização dos fantasmas
Que brotam das paredes inventadas
Na imensidão do escuro.
O convívio forçado, o medo aceite, a revolta sufocada.
A condenação revisitada,
A sentença do único possível caminho
Para o alívio da praia solarenga.
A esperança do mar,
Da conversão do deserto,
Da possível escapada à tempestade de areia como um vórtice devorador.
Mas, para já, o mergulho,
O corpo esquecido,
A alma aberta dentro dos olhos fechados.
O túnel.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Texto décimo quinto

Anna Karénina, de Lev Tolstoi. Centenas de páginas de romance em estado puro. O cruzamento perfeito entre a simplicidade da intriga e o complexo rendilhado de sentimentos das personagens. A história de Anna Arkadiévna é contada de forma magistral: da circunspeção exemplar e aparentemente inabalável até à espiral do delírio, mergulhamos no seu drama ao virar de cada página. Ou sentimos que ele se cola a nós e nos arrasta, como lhe faz a paixão por Vronski.
A intensidade e o sentido trágico deste amor acentuam-se pelo contraste com as outras histórias e as outras personagens, que são tudo menos dispensáveis nesta obra gigantesca: a diferença quase diametral entre Dolly e Kitty ajudam-nos a perceber a profundidade do drama vivido por Anna, num mundo agrilhoado por convenções sociais e códigos de moralidade. E Vronski, camuflado na sua digna vulgaridade entre Oblonski, Lévine, Kosníchev e todos os outros, torna-se o (im)provável amante numa paixão que, parece dizer-nos Tolstoi, está ao alcance de qualquer mortal. E quanto a Alexei Alexandróvitch? Como podemos manter-nos alheios à sua dor, como podemos escapar à simpatia, como não acariciaremos as palavras que descrevem o seu sofrimento cavado e elegante?  
Por trás de tudo, o cenário de uma Rússia imperial desgastada e teimosa, onde a escrita de Tolstoi parece antever a profecia de uma mudança. E, à frente, o infinito, a transcendência. O mistério do sentido da vida humana e do seu devir, afinal a única coisa que parece verdadeiramente interessar ao chegar-se à última página. Porque era o que lá estava desde a primeira.
Conheço algumas adaptações cinematográficas e televisivas deste livro. Nunca vi nenhuma. Porque não quero. Não acredito que seja possível traduzir em imagens a incomparável eloquência narrativa do mestre russo. Não se pode verter o oceano numa cova da areia.
Anna Karénina, de Lev Tolstoi: uma grande obra da literatura universal. Imprescindível. Eterna. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Segunda alegoria

Diante de tudo, uma luz
Inscrita nas origens
Brilhando sobre o sentido e fim último das coisas.
Depois, um como que fumo,
Surgido das vestes brancas de uma verdade maior,
Esparge para os lados o seu perfume lacrimogénio
E embrulha as dores e putrefações
Que choram também de júbilo.
Atrás, todo o séquito deslumbrante:
Corpos teleguiados,
Vestes enfunadas
E o essencial sempre invisível.
O cortejo avança,
O filho rompe o ventre da mãe
Em fúria processional,
As trevas tornam-se luz
Num choro recém nascido feito canto lucernar.
É a Vida.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Texto décimo quarto

As manhãs de sábado eram para as compras. Ele acompanhava a mãe, transportava os sacos vazios e carregava-os cheios no regresso a casa. A mãe tinha um quisto na mão direita que lhe inibia os carregos e, embora desdenhasse a moléstia, era sôfrega da companhia. Claro que ele julgava-se importante apenas pela força dos braços e, como a mãe nunca lhe elogiava os dotes do espírito, cresceu na convicção de que valia apenas enquanto executor de tarefas. 
O mercado era na rua, ocupava as placas centrais da pequena avenida que desembocava na igreja. Mergulhado na estreiteza das bancas, entre caixas de fruta, molhos de legumes e alguidares de peixe supostamente fresco (os balcões do pão e dos bolos eram mais adiante e, para as roupas, era preciso atravessar para o passeio lateral), ele não imaginava que um dia viria a ter saudades daquele sítio. Dos encontrões entre sacos recheados, das botas a chapinhar na água que escorria com todos os cheiros misturados, da vulgaridade despudorada das conversas em voz alta.
Um dia, o mercado foi instalado em recinto próprio, espaço circular de corredores concêntricos, bancas de pedra com medidas e apetrechos regulamentares. A largueza do sítio, a limpeza e ordem de tudo transformaram as manhãs de sábado em algo diferente, normalizado. Na aparência, tão só, porque o cenário não constrói as personagens. E, sob aquela capa de civilização, ele redescobriu a natural rudeza da população com a qual não se identificava, mas em cujo seio se resignara a crescer.
Hoje, atordoado pela atmosfera artificial da imensidão quadriculada do hipermercado, onde todas as horas são iguais e o anonimato é uma gigantesca vaga que tudo submerge, ele recorda o bulício das placas centrais da pequena avenida que desembocava na igreja, onde a escassez tantas vezes determinava a necessidade de madrugar e a familiaridade chegava a ser incómoda como insetos.
Na imensidão quadriculada do hipermercado, ele suspira, consciente da espiral inexorável do tempo: “O que é que ainda me fará ter saudades disto?”

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Texto décimo terceiro

Mergulhado nos recônditos aprazíveis do Portugal profundo, vi-me, durante uma semana, privado do acesso à internet. Entre outros constrangimentos, a circunstância impediu-me de manter o compromisso da publicação semanal neste blogue, que é a forma periódica que tenho de dizer aos meus leitores que estou vivo e penso neles,
Ligado, todavia, ao mundo da “terceira vaga” pela TDT, assisti na televisão à notícia do décimo aniversário do Skype e de todas as suas virtualidades de comunicação visual e imediata. A voz de locução evocava as cartas e os bilhetes postais como ecos difusos de um passado tornado invisível pela dobragem da esquina de uma evolução tecnológica irreversível e sedutora.
Diante do meu computador portátil, no qual exerci, durante aqueles dias, uma acrobacia de escrita literalmente «sem rede», digitei este texto com uma sensação mista entre a purificação e o desamparo. Para além da nostalgia histórica da “galáxia de Gutenberg”, revisitei a memória das cartas adolescentes que escrevi, e que enviei esperando resposta. E do tempo que escorria em tudo isso. E do que crescia em mim durante esse tempo. E do que se perdia nessa duração. As cartas eram segredos guardados na abstração de um envelope selado que os comunicava com uma lentidão que se arriscava a desatualizá-los. O Skype é a eficácia de comunicação numa partilha de tal modo imediata e concreta e aberta que não garante o segredo. Porventura, nem deseja.
Para além do seu potencial de realização, os meios de comunicação ligados à alta tecnologia invocam, atualmente, em sua defesa, uma sustentabilidade que parece projetá-los numa “quarta vaga”: a dispensa de suporte de escrita permite evitar o desbaste de florestas (compensado, entre nós, por recorrentes, trágicos e criminosos incêndios), garantindo viabilidade enquanto não houver esgotamento dos recursos energéticos.
Que deveremos ainda esperar no futuro, quando todo este presente for deixado para trás, na dobragem de esquina da evolução inexorável?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Nós, Vida | Booktrailer

Aqui fica uma outra forma de abordar o livro Nós, Vida. Apresenta-o, sem o desvendar. Sintetiza-o, preservando a sua identidade. Sugestiona, desafia para a leitura. Convida.
Nós, Vida pode, ele próprio, ser encarado como um convite. A um encontro connosco próprios. À reflexão sobre quem somos.
Vale a pena!

video

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Texto décimo segundo

A adolescência despontou bizarra dentro dele. Nunca se lhe esbugalharam os olhos diante das formas curvilíneas das raparigas sobre quem, de resto, exercia o curioso fascínio de um aconchego emocional. Elas apreciavam a simplicidade viril do seu cavalheirismo polido, ele dispensava-lhes um modo outro de amizade, feita de consideração e escuta. Revelava-lhes o altruísmo na idade em que ser egoísta é tão natural como as borbulhas no rosto. Amou e quis ser amado, mas só quando descobriu um espírito sublime num corpo recatado de mulher.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Cresceu numa desarmonia de membros, mas expandiu para dentro uma grandeza maior, vislumbrou um mundo interior mais infinito que o universo que aprendia nos bancos da escola. Sem saber que nome lhe dar, chamou alma a essa plenitude. Mas era um termo castrado ainda, porque herdara uma infância de mãos postas e não descobrira ainda o imenso lago filosófico onde haveria de mergulhar depois.
A adolescência despontou bizarra dentro dele. Descobriu-se a olhar sempre para dentro das coisas, dos momentos, dos seres. E não sabia porquê.
Só mais tarde, na sábia distância do tempo e no vislumbre lúcido da memória, percebeu. Recordou os aniversários em que o seu pai o tirava de casa e o soltava nas salas forradas de livros da grande livraria. Ali, varrendo com o olhar as lombadas na possibilidade de escolher o que quisesse – era essa a sua prenda de anos – experimentou inigualáveis êxtases de identidade, desafio, liberdade e sentido. Ali, pela mão do seu pai, descobriu um mundo de fascínio de que soube revestir-se como de um casulo.
Foi nesse casulo que eu nasci. Fui a melhor prenda de anos que o seu pai lhe deu.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Primeira alegoria

Estou aqui.
Há quanto tempo dura a expetativa do encontro?
Diante de mim, uma planície de brancura:
Paz, pureza, soma de tudo.
Impaciência, porque vais aparecer.
O desejo de te ver. A pressa.
E o medo.
O nó na garganta. O garrote dourado.
O medo.
Olho através dele como de grades,
Escorro nas lágrimas uma ansiedade incontida.
O desejo de te ver na pressa de um momento que não quero,
Porque é o princípio do fim.
Calam-se todas as vozes,
Esvazia-se o espaço, desagrega-se o tempo,
Um súbito nada envolve tudo.
E fico só.
Luz.
Luz.
Luz.
Lá estás tu.
Vês-me sem me olhares, no sorriso das tuas mãos atadas.
Abraço-te sem fazer gestos, no sorriso do meu olhar desatado.
A partir de agora, vou viver em ti.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ficção V - Por causa de um livro

A luz vermelha do semáforo escorregou para verde. Num reflexo condicionado, ele engatou a primeira velocidade e pôs o veículo em andamento, sincronização perfeita do movimento projetado do braço direito e do jogo de pés sobre os pedais: alívio do esquerdo fixando o ponto de embraiagem, pressão do direito na aceleração necessária para o arranque.
Era cuidadoso na condução. Porque aprendera na infância o zelo que punha em todas as coisas e porque se sentia permanentemente avaliado pelos clientes que transportava.
“Vi o filme”, chegou-lhe aos ouvidos, por entre o tiquetaque do taxímetro e o revivalismo do rádio que emitia música dos anos setenta, a voz da mulher de meia idade sentada no banco de trás.
Olhou-a pelo retrovisor. Percebeu os seus olhos cerúleos, que fulgiam na pele morena como topázios, poisados no livro que estava entalado entre o travão de mão e o lugar do morto, lombada amarela para cima a desvendar o título: E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell, segundo volume da segunda edição portuguesa.
“O filme é o livro amachucado”, respondeu ele, descolorindo o mais que pôde a entoação, “Eu prefiro ler”.
Ela franziu a testa, acentuando o lampejo do olhar que tentava sacudir o preconceito na sua limpidez: nunca vira um motorista de táxi como amante da leitura, mas por que não? Ele pareceu não reparar. Apertou o volante entre as mãos cinquentenárias treinadas para gestos mais criativos, concentrou-se no destino e no percurso para atingi-lo. Ela não resistiu à curiosidade:
“Costuma ler muito, aqui dentro do carro?”, perguntou.
“Gosto de ler”, respondeu ele, procurando manter-se neutro à conversa, “É assim que me entretenho entre dois serviços”.
 Ela sorriu, iluminando todo o rosto com a coloração azul celeste do olhar. Sentia-se já invadida por aquela curiosidade cirúrgica que sempre a dominava perante as pessoas que encontrava no jogo do acaso. E, numa decisão sem retorno, lançou a pergunta:
“Se me permite: porque é que diz que o filme é o livro amachucado?”
Foi a vez de ele sorrir, a resposta colorida de emoção bailando-lhe nos lábios. E seguiu-se a conversa.
O táxi foi atravessando a cidade, cúmplice daqueles dois desconhecidos que se desvendaram um pouco nas ideias e sentimentos. Por causa de um livro.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Texto décimo primeiro

Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. A aula de História decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma. Dentro dele, porém, o ritmo era outro, uma aceleração de curiosidade pelo passado que ilumina o presente, uma voragem de busca, no tempo que foi, de uma chave de interpretação do tempo que é. Uma avidez de conhecer, uma insatisfação da ignorância. Uma pressa.
(Hoje ele sabe que a História não ilumina nem interpreta: interessa, porque desenrola uma intriga; fascina, porque expõe o mistério do que cada um de nós é no eco do testemunho do que todos os outros já foram; e compromete, porque nos absorve na vaga da evolução das sociedades, corrida no tempo contra um tempo que há de vir.)
O professor apontava o mapa, continentes mergulhados nos oceanos daquela tela esticada entre duas ripas de madeira que uma fita medrosa suspendia de um camarão torcido, acima do quadro preto (ou seria verde escuro?). E explicava a viagem que definiria a rota do Cabo: a ida que se alargava generosa no Atlântico, barriga esperançada de dar à luz um qualquer Brasil a oeste, gerado no suor do polémico acordo de Tordesilhas; e a volta recheada de oriente, a obesidade das naus apoiada nos contornos reconhecidos da costa africana.
(Anos mais tarde, o reencontro casual com o professor, já desativado das lides docentes e enlatado num trabalho de gabinete que lhe satisfazia a resignada sobrevivência, deixou-o pensativo nos solavancos do autocarro: e se o Gama também se tivesse resignado à mera sobrevivência?...)
Frequentava o 8º ano de escolaridade, na maré baixa já meio serenada dos restos da década de setenta. E ali, naquela aula de História que decorria na velocidade de cruzeiro do desinteresse generalizado da turma, decidiu que queria ser professor.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Ficção IV - A vida era outra coisa

Escrevia compassadamente. Deixava deslizar as palavras sobre a folha pautada, ignorando o suor, simultaneamente pegajoso e escorregadio, que lhe colava os dedos ao mesmo tempo que lhe fazia fugir a esferográfica num discurso que não controlava.
Porque, verdadeiramente, ela não estava ali. Era o seu corpo fresco e curvilíneo, o seu rosto de boneca, o seu cabelo aloirado apanhado com um elástico sobre a nuca. Mas ela não estava ali. Era a sua mão delgada que segurava a esferográfica, unhas massacradas pelo vício de roer. Eram até as suas ideias, ou melhor, as ideias que estudara obstinadamente até que fossem suas, que vertia sobre o papel num discurso claro e articulado apesar do piloto automático da distração. Mas ela não estava ali. Discorria sobre as vicissitudes do ultramar português no contexto da primavera marcelista, mas não queria verdadeiramente saber disso. Importava-lhe a nota daquele teste, claro, e a classificação final da disciplina, almofada para o exame nacional que se avizinhava. Mas a vida dela era outra coisa. Eram os últimos dias do Ensino Secundário, o trampolim para a universidade. Mas a vida dela era outra coisa.
Mergulhados no sepulcro da concentração, todos os alunos debruçavam sobre as folhas de prova os recheados silêncios da sabedoria ou os desprovidos sossegos da ignorância. E o véu de quietude da sala de aula era devassado pelos gritos das crianças no pátio, estridentes como canções libertárias, parecendo contestar a tirania daquele esforço intelectual.
Ela invejava-as. Invejava a liberdade delas, a vida que se soltava, inconsciente de si mesma, na descontração daqueles gritos. A sua vida. Invejava-as enquanto a esferográfica lhe conduzia a mão no discurso que desenrolava em caligrafia rasteira.
E sorria, limpava o suor da mão, observadora ausente da sua própria escrita.
E lamentava não poder voar.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Texto décimo

Os Miseráveis, de Victor Hugo. A escrita definitiva, a literatura acabada e completa. Fixamo-nos no início de cada volume como em alicerces, crescemos com os capítulos sucessivos, viramos a última página como quem coloca a pedra de fecho da abóbada. E ficamos a contemplar aquela imensa obra, arquitetura de palavras, força contida nas palavras, vida latente na força que as palavras contêm.
Os Miseráveis: palavras que ganham vida para dizer a vida toda com incomparável mestria. Está ali a França das revoluções e das barricadas, a história, o ser humano na metáfora do anseio de liberdade e das barreiras da contradição. Está ali a intriga, a humanidade toda naquelas personagens, nas palavras que as dizem de forma sublime. Estamos ali nós.
Somos nós, naquelas personagens. Somos nós naqueles heroísmos preenchidos de fragilidade, naquelas fraquezas possuídas pela coragem. No sublime e no ridículo, no genuíno e no perverso, na virtude e na baixeza. Somos nós em Jean Valjean e em Javert, em Fantine e nos Thénardier. E em Cosette. E em Marius. E no Gavroche que vive – ou já viveu – ou devia viver ou ter vivido – em cada um de nós. E em todos os outros.
Somos nós naqueles que são muito mais que nós. Elevam-nos a fasquia, transcendem-nos. São literatura, dizem-nos a nós mesmos muito mais. E amamo-los por isso.
Os Miseráveis, de Victor Hugo: o melhor livro que já li.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ficção III - "Ajeitas-te bem, rapaz!"

Lavava pratos um após outro, como quem folheia as páginas de um livro. Todos os dias, em horário fixo. Passava repetidamente o esfregão para os desengordurar, com a energia de quem relê uma frase mais rebuscada em busca do sentido preciso. Era zeloso e diligente no trabalho, como se aquela fosse a tarefa mais nobre e necessária do mundo, como se o sentido da sua existência se resolvesse no alumínio daquele lava-loiça sobre o qual se debruçava.
“Ajeitas-te bem, rapaz”, dizia o encarregado da copa, ao passar por ele, certo de que o animava com o seu tom de encorajamento.
Ninguém gosta de lavar pratos. Todos os dias, em horário fixo. Ele superava o desgosto desenvolvendo uma certa insensibilidade ao ato, alicerçada numa secreta sublimação. Sabia que, do outro lado da copa, na sala iluminada, um empregado mais velho, de camisa engomada e laço preto, dispunha aqueles mesmos pratos, enxutos e reluzentes, nos tampos atoalhados de mesas reservadas, diante de homens de negócios revestidos de burocracia, mulheres vaporizadas nos vestidos desprendidos de uma noite de gajas, casais assumidos ou furtivos, famílias celebrativas ou simplesmente reunidas em busca de funcionalidade. Mas não era isso que o animava.
Terminado o horário fixo, despia o avental e voltava a envergar a gabardina azul, levantava a gola e pegava na pasta de cabedal, virava costas à sala iluminada onde nunca entrara e saía do restaurante pela porta dos fundos, que deitava para a rua mais curta até à estação de comboios.
“Ajeitas-te bem, rapaz”, ecoava-lhe na mente a antífona do encarregado da copa.
Alcançava a estação invariavelmente quatro minutos antes da chegada do comboio. Esperava, entrava, conquistava um lugar, desarmava-se na abertura da pasta de cabedal, escancarava-se no livro aberto de que retomava a leitura. Era o primeiro volume de Os Miseráveis. Ele cumprira o horário fixo de avental com a mente focada na desgraça de Fantine.
Mais quinze dias a folhear pratos engordurados sobre o alumínio do lava-loiça e já poderia pagar a inscrição no curso de Literatura.
“Ajeitas-te bem, rapaz”.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Conversando... sobre "Nós, Vida" (2)

Nós, Vida é um livro centrado (quase exclusivamente) em personagens e situações. Do cruzamento delas resulta o enredo, no qual é difícil distinguir uma figura central.
Uma das curiosidades do livro reside, quanto a mim, na forma como a definição da personagem principal (ou das personagens principais, se quisermos conceder um protagonismo plural) difere de acordo com a perspetiva de leitura e a própria maneira de sentir do leitor.
Por isso, deixo aqui uma pergunta a cada um dos leitores: qual é, para si, a personagem principal de Nós, Vida?
Gostaria muito de conhecer respostas… 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Texto nono

Relação fiel e verdadeira. Eu deixo-o ser quem é todos os dias, assisto de dentro ao modo inglório como ele tenta debalde ser quem deveria, amparo na minha inexistência a sua frustração essencial.
Depois espreito a agitada quietude das suas noites, invado as insónias que se calhar lhe provoco, afirmo-me nele esta vontade de escrever, de ser por escrito o que ele não alcança ser em vida. Completo na minha essência a sua limitação existencial.
E ele consente, agradece até este algo mais que está nele e o promove, deixa-me ser quem sou nos espaços de noite onde ele não é. E, assim, chega a ser ele próprio algo mais. Relação fiel e verdadeira.
Às vezes isso acontece em pleno dia, ou faz-se dia pleno quando isso acontece. E resulta a escrita.

domingo, 30 de junho de 2013

Conversando... sobre "Nós, Vida"

Quando, no processo prévio à publicação, registei o livro Nós, Vida, o formulário que preenchi pedia uma síntese da obra num espaço que não ocupava mais de três linhas. Recordo-me da dificuldade que tive em exprimir em poucas palavras em que consistia o livro e do que tratava. Escrevi então qualquer coisa como: “Ficção narrativa em que, através do relato das vidas cruzadas de personagens comuns, se promove uma reflexão sobre o sentido da vida, o ser humano e o seu destino.”
Mas esta frase, confesso, não me satisfez plenamente.
Solicito, por isso, aos acompanhantes deste blogue e leitores do livro, que partilhem comigo neste espaço a concordância ou discordância relativamente a esta definição. E peço que, a partir das vossas perspetivas de leitores, me ajudem a elaborar uma síntese mais adequada e completa.
Obrigado!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Texto oitavo

Noite. Os ponteiros fosforescentes do relógio desenham as três e meia. O silêncio invade o espaço todo que a escuridão embrulha. Como sempre, ele não consegue dormir. Levanta-se da cama, ergue o seu corpo do estrado que protesta a sua insónia num rangido acusatório. Olha brevemente para a tranquilidade, no outro lado da cama. O espesso invólucro da noite mal deixa entrever a beleza dela, derramada entre os lençóis naquele corpo maduro, delicado e provocante, naquele espírito elevado, voluntarioso e sensível. E, dentro dele, há um impasse de ternura no coração sobressaltado.
Afasta-se, sai do quarto. Percorre a casa de olhos bem abertos no escuro, atento à impossibilidade de ver com clareza.
O sofá da sala sufoca um queixume ao sofrer o acolhimento do seu corpo pesado. Ele ali fica, sem pressa, libertando o espírito no tempo que escorre, saboreando lentamente a insónia resignada que é, para ele, a contrapartida noturna de não ser indiferente às coisas, durante o dia.
Não acende a luz. Deixa uma ténue esperança brilhar no escuro ou sonhar com isso: talvez daquela solidão nasça alguma coisa que valha a pena escrever.
Talvez eu queira.

sábado, 22 de junho de 2013

Conversando...

A sessão de apresentação de Nós, Vida, no passado dia 20, deu-me um vislumbre da possível importância da obra: a afirmação física do objeto-livro, a sua inegável elegância estética, a presença multiplicada de amigos, a atenção deles sobre mim como um abraço de olhares. A curiosidade e a expetativa.
Gostaria de captar o eco de tudo isto no interesse tornado leitura, na leitura vertida em opinião, na opinião feita partilha. Este blogue pode também ser um espaço de conversa sobre o livro e tudo o que ele suscita. Nesta época de incessante troca de informações, urge valorizar a literatura como conteúdo enriquecedor da comunicação.
Para quem preferir fazer um comentário mais particular, estarei sempre disponível através do endereço de e-mail alvarocordeiro64@gmail.com.
Obrigado pelo acompanhamento e apoio.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Ficção II - A impaciência da espera

Terminou o jantar simples: uma tigela de sopa aquecida com dois toques no botão do microondas e deglutida em colheradas ritmadas; uma empada de galinha que ficara da visita da velha amiga de infância, durante a tarde; as uvas, vagamente passadas sob a torneira com o desleixo de o-que-não-mata-engorda. Gostava de uvas porque eram frescas e doces e, principalmente, porque não era preciso descascá-las, tarefa inacessível aos seus olhos privados de luz.
Tateou a pilha de pratos no lava-loiças e depositou sobre ela a tigela vazia. Limpou as mãos ao pano mais sujo que elas que pendia de um prego fixo na parede há mais anos do que era capaz de se lembrar e deslocou para a sala o seu corpo desgastado pela osteoporose. Com um suspiro, deixou-se abraçar pela poltrona de todos os serões, encostou a cabeça e fechou os olhos, num gesto que significava o mesmo que tê-los abertos.
Recordou os tempos de outrora, antes da degeneração macular, em que o seu olhar de rapariga independente e culta absorvia toda a luz em redor com despreocupada sofreguidão, vagueava por paisagens e pessoas para mergulhar na profundidade dos livros, onde buscava emoção e dor, paixão e vida dentro da própria vida. Eram tempos de leituras furtivas, clássicos de peso sonegados da estante paterna em tardes de solidão, novelas proibidas disfarçadas noites a fio entre as pregas dos cobertores. E revistas, fotonovelas e poesia.
Agora, essas lembranças emergiam do poço escuro dos seus oitenta e dois anos como lamparinas de revolta, impotentes para romper a espessa cortina dos seus olhos mortos. Num gesto amolecido pela resignação, deslocou o braço para a mesa a seu lado, em movimentos insistentes e cautelosos de sonda, até que os seus dedos enrugados toparam com a maciez das folhas sobrepostas.
Pegou no livro e aconchegou-o no colo, numa carícia de saudade e desgosto. E suspirou repetidamente a impaciência da espera. O tempo demorava o dobro do tempo, naquelas horas em que, na impotência da cegueira, aguardava a chegada do neto que viria ler-lhe mais algumas páginas.